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sem ganasagora em versão medicada!
Aqui jaz
j f
morreu
como tinha vivido
sem ganas

Joan Fuster

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A ilusão e a paciência

Toda a gente se imagina ser distinta de como é. Se não fosse assim, ninguém teria paciência para se suportar a si mesmo.
Diccionari per a ociosos (1964), Joan Fuster
Na Ópera dos três vinténs, Jenny — empregada no hotel — imagina-se líder de um grupo de piratas e como, através deles, se vingará da população e do tratamento que lhe reservam. Não é a melhor ilustração da frase do Fuster —não é o que ela é que a molesta e a leva ao delírio, é onde está; é um problema de casta, não de seiva —, mas aqui fica:
Meus senhores, hoje aqui me vêem estes copos a lavar,
e faço a cama a qualquer malandro fiel.
E dão-me uns cobres, e eu digo «obrigada» a saltar,
e olham pra os meus trapos e pra este miserável hotel
e os Senhores nem sequer sonham com quem 'stão a falar.
Mas uma bela noite vai haver gritaria no porto
e hão-de perguntar: Que gritaria será esta?
E hão-de ver-me sorrir cá c'os meus copos
e dirão: Porque é que sorri esta?

E um navio de oito velas
e cinquenta canhões
acostará ao cais.


E dirão: Menina, põe-te a lavar copos!
E atiram-me uns magros trocos.
E eu pego nos trocos e vou fazer as camas.
(Mas ninguém dormirá essa noite nessas camas.)
E ainda não saberão quem é que eu sou.
Mas uma bela noite haverá chinfrim no porto
e então perguntarão: O que é este chinfrim?
E hão-de me ver estar por detrás da janela
e dirão: Porque é que esta ri assim?

E o navio de oito velas
e cinquenta canhões
alvejará a cidade.


Meus Senhores, então o vosso riso passará,
pois os muros hão-de ruir
e a cidade será toda arrasadinha;
Só um hotel miserável se poupará.
E hão-de perguntar: Quem é que de importante mora ali?
E nessa noite haverá gritos em volta deste hotel
E perguntarão: Porque pouparam este hotel?
E hão-de me ver sair pela porta de manhã
e hão-de dizer: Era então esta que morava ali?

E o navio de oito velas
e cinquenta canhões
porá bandeiras no mastro.


E hão-de vir cem marujos a terra ao meio-dia
e hão-de acoitar-se na sombra
e hão-de prender todos em todas as portas
e amarrá-los-ão pra os trazer ante mim
e perguntar: Qual queres tu que matemos?
E por esse meio-dia haverá silêncio no porto
quando eles me perguntarem quem é que há-de morrer.
E então, meus Senhores, me ouvireis dizer: Todos!
E quando a cabeça saltar, então direi: Hopplá!

E o navio de oito velas
e cinquenta canhões
comigo se sumirá.
Seeräuber Jenny (Jenny-dos-piratas) (1928), Bertolt Brecht (trad. Paulo Quintela)

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