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sem ganasagora em versão medicada!
Aqui jaz
j f
morreu
como tinha vivido
sem ganas

Joan Fuster

sábado, 20 de novembro de 2010

Wise Blood

Acabo de regressar de quase duas semanas de internamento na ala psiquiátrica do Hospital de São Bernardo, em Setúbal. A estadia foi, felizmente — até ver —, curta, e o Jack Nicholson não estava lá, pelo que não tive direito a epifania. A única libertação que testemunhei foi a de um dos meus companheiros\vizinhos da enfermaria nº5, que ganhou gosto em defecar no polibã, entre outras actividades de salubridade questionável a que se dedica* — nele, o corpo formou-se e prossegue o seu caminho normal, envelhecendo, mas o cérebro ficou para trás, congelado num ponto no tempo em que nem a fala primária domava.

Além dos meios mais modernos disponibilizados pela indústria farmacêutica para destruir o meu fígado**, fiquei com esta cor, este tom verde: frio q.b., pacificador sem chegar a ser mórbido. Restou-me ainda outra coisa: aquela fusão perfeita e, paradoxalmente, incompleta, de distância com coincidência; um pouco como a sensação de alienação e estranheza, e, em simultâneo, de familiaridade e pertença em que — arrisco dizê-lo — se besuntam todos os que tenham lido o Wise Blood da Flannery O'Connor. Até o título bate certo.
Talvez retorne a isto.


* No que toca a revelações, havia outro tipo que parecia ter descoberto o Senhor — pelo menos não deixava de invocar o Seu nome à menor oportunidade (em vão, diz-se com propriedade). Como sempre, soava mais a wishful thinking do que a qualquer outra coisa; via-o não tanto liberto de si e dos seus tormentos como disposto a entregar-se a quem o aceite, assim, de braços estendidos e pulsos colados, quase desejando os grilhões. Cristo é o pré-aviso.

** A ironia é que agora não posso beber. Prática monopolista?

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