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sem ganasagora em versão medicada!
Aqui jaz
j f
morreu
como tinha vivido
sem ganas

Joan Fuster

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

E também está a ficar fresquinho

Nights dark beyond darkness and the days more gray each one than what had gone before. (...) A blackness to hurt your ears with listening.
The road (2006), Cormac McCarthy
Vi há poucos dias o filme, depois de ter lido o livro. Enquanto o lia, lembrei-me do Branca de Neve do João César Monteiro nas descrições da escuridão nocturna — com frequência, pelo menos nas noites em que não podiam ou não tinham com que fazer uma fogueira, o pai caminhava às cegas, dependendo inteiramente do chamamento do filho para regressar, tal a densidade da poeira e do seu efeito na atmosfera. Furtaram-se a isso no filme: é quase cristalino; e demasiado limpo — veja-se o cobertor com que o filho cobre o corpo do pai, por exemplo, ou a face do miúdo que, progressivamente, pedia um tratamento Auschwitz, em vez do "sujei-me um bocado a comer mousse de chocolate" que lhe esfregaram. Pequena nota: o pudor ridículo em não mostrar o filho despido quando toma banho no rio, ao contrário do Viggo Mortensen; o mundo pode ter acabado, mas nunca se sabe quem está à espreita, e hoje até com um inalador para a asma se tiram fotos.

Ainda assim, gostei da adaptação, mas resulta bastante menos intensa do que o livro, não só no ambiente geral — desejava-se espesso, sufocante, ameaçador — como nos trechos de terror e, vital, no desespero da certeza da proximidade da morte do pai — e consequente urgência em levar o filho a porto seguro —, com a consciência de que será sempre cedo demais, de que ele, o pai, não estará lá para lhe dar a mão, ajudá-lo a crescer e vê-lo tornar-se um homem.

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